Criolo e as referências políticas no poderoso clipe de “Boca de Lobo”

No último dia 30, Criolo lançou seu novo videoclipe que trouxe inúmeras referências do que vem ocorrendo no país.

As rimas ácidas do paulistano contra a corrupção na política, o desvio de verbas, o descaso e a violência sistêmica que atinge quem está às margens da sociedade ganharam ainda mais sentido com o vídeo lançado junto com a música. Com uma produção impecável, o clipe é uma coleção de imagens que remetem à realidade caótica brasileira num cenário distópico, porém não muito longe do que vivemos hoje.

As referências que, talvez, você não tenha percebido

O primeiro quadro do vídeo já mostra um prédio pegando fogo, em referência ao incêndio num edifício no Largo do Paissandu, em São Paulo, que fez nove vítimas. O prédio, que abrigava cerca de 150 famílias, desabou após ser engolido pelo fogo. E, se você prestar atenção, verá também que, numa das janelas, aparece uma figura indistinta com uma panela na mão — representação máxima dos “paneleiros”, pessoas que protestaram contra o governo de Dilma Rousseff e o PT batendo panelas nas janelas de edifícios.

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O caos nas ruas sugere as manifestações de 2013, sob forte repressão policial. Uma cena rápida de uma lanchonete, apinhada de pessoas na porta, mostra a televisão noticiando o triste incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que devastou o histórico palácio e milhões de itens de seu acervo.

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Aos 30 segundos de vídeo, a imagem de um prato com apenas um biscoito (ou bolacha?) e um copo de suco faz menção ao escândalo das merendas de São Paulo. A verba destinada às merendas das escolas públicas foi desviada por um cartel em diversos municípios do estado. Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo, foi chamado de “ladrão de merendas”, e a Justiça chegou a pedir dados de usuários do Twitter que o acusaram dessa forma.

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O paramédico que corre com uma criança até a ambulância traz a inscrição PEC 55 nas costas, projeto que congela gastos públicos da saúde e educação durante 20 anos, e que foi aprovado pelo governo no fim de 2016. O menino veste o uniforme das escolas públicas do Rio de Janeiro, e o plano faz referência à imagem do menino sírio resgatado num dos bombardeios na cidade de Aleppo que rodou o mundo.

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No meio do pandemônio, pessoas fugindo de ratos imensos que saem do subterrâneo: a representação dos políticos e o esquema de propina e formação de cartel do metrô de São Paulo, o chamado trensalão.

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Na próxima cena, uma família esbanja sua riqueza, fruto da corrupção. Uma das mulheres veste uma blusa da grife Gucci com a frase “recatada e do lar”. Esses foram os adjetivos usados pela revista Veja, em 2016, num perfil sobre a primeira-dama Marcela Temer. Os guardanapos de pano na cabeça também se referem à farra dos guardanapos, festa do ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, em Paris, promovida com dinheiro público desviado do estado.

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Um avião cruza o céu, caindo, em uma rápida referência aos acidentes do presidenciável Eduardo Campos, morto em 2014, e do ministro Teori Zavascki, que faleceu em 2017. Os dois foram vítimas de acidentes aéreos que repercutiram nos noticiários e fomentaram inúmeras teorias sobre sabotagem.

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As manifestações se intensificam. Uma fogueira feita de carteiras escolares queima, simbolizando o levante de estudantes secundaristas, que ocuparam inúmeras escolas entre 2015 e 2016.

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No topo de uma refinaria de petróleo, um mosquito pousa e começa a sugar nosso combustível. Embaixo, a palavra “hell”, que remete à marca Shell e o interesse internacional na exploração do petróleo no pré-sal. O mosquito também representa as epidemias de dengue, zika e chikungunya.

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Em poucos segundos, a câmera registra uma mulher rodopiando um tecido enquanto grita, e um homem de terno brandindo um livro. A mulher representa Janaina Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma, no infame discurso na USP, em 2016. O homem seria a representação da bancada evangélica, exaltando a Bíblia e seus dogmas, e o fanatismo religioso que nos cerca.

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As cenas seguintes são bem claras: o cenário mostra um gigantesco porco chafurdando na lama do desastre de Mariana, que devastou o município do interior de Minas Gerais em 2015, enquanto uma figura feminina se destaca no meio do pandemônio da cidade representando Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em Março.

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O incêndio do Museu da Língua Portuguesa, localizado na Estação da Luz, em São Paulo, é visível, enquanto um enorme tucano destrói um helicóptero que vira pó. A analogia é gritante, já que o tucano é o animal-símbolo do PSDB, e o helicóptero foi o ponto principal do escândalo em que a Polícia Federal apreendeu 450kg de cocaína no veículo que pertencia à família do senador Zezé Perrella. Sua proximidade com o também senador Aécio Neves, membro do PSDB, trouxe Aécio para o radar do caso “helicoca”.

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A sequência de imagens sobre propinas traz elementos que o olhar desatento pode não perceber. Um dos computadores em cena mostra a frase “Não fale em crise, trabalhe” do presidente Michel Temer como fundo de tela, enquanto um calendário de mesa diz “Agro é tóxico” — slogan que contraria a campanha “Agro é pop”. A cena logo recai na imagem das malas e caixas de papelão cheias de dinheiro, encontradas num apartamento do ex-ministro Geddel Vieira Lima, em 2017. O político teria guardado num “bunker” cerca de R$51 milhões em espécie.

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O videoclipe termina com um enorme morcego sobrevoando Brasília, uma clara cutucada no presidente Temer. Não é a primeira vez que o político tem sua figura associada à de um vampiro, tendo sido caracterizado dessa maneira no desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti, no carnaval de 2018. O samba-enredo deste ano, assim como Criolo, trazia uma crítica de viés político e social.

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Além das inúmeras referências em vídeo, a letra da música também cita o Grajaú, bairro de origem do rapper que fica na zona sul de São Paulo, e traz à tona o caso de Rafael Braga com o verso “Um litro de Pinho Sol pra um preto rodar” — Rafael foi preso em meados de 2013 por estar com uma garrafa do produto de limpeza e água sanitária. Foi o único condenado durante as manifestações daquele ano.

 

Por Beatriz Brito - Tenhomaisdiscosqueamigos.com

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