Carlos Abelhão

Leiam o conto "Eu sempre quis ser BRANCO" de Carlos Abelhão

Nesse conto o autor aborda questões raciais, comuns em nosso cotidiano.

Eu sempre quis ser branco...

Quando criança na escola eu era chamado de macaco, beiço de mula, cabelo de Bombril, canela russa, neguim fedorento entre outras coisas.
Eu sempre ganhava os concursos de mais feio da sala...
Nunca me deixavam participar das brincadeiras, na aula de educação física eu era o ultimo a ser escolhido no futebol.

Eu acreditava que se eu fosse branco nada daquilo iria acontecer...

Na adolescência meu sonho de se tornar branco continuava, eu alisava o cabelo com Guanidina, e entupia a cabeça com Neutrox, usava uma lente nos olhos e evitava fala gírias.
O estranho é que eu não tinha um lugar no mundo, eu não era aceito pelos brancos e nem pelos iguais a mim, a vida se resumia em sonho e solidão, na busca de ser aceito e de realizar meu sonho de ser branco, espantava a solidão com muitos estudos.

Lia muitos livros de autores brancos, escutava músicas clássicas (Mozart,Beethoven, Bach )
Passei no vestibular e claro entrei em uma faculdade de maioria branca (Odontologia)
No primeiro dia de aula a turma toda me olhava com um olhar de estranhamento, na verdade eu conseguia lê em suas faces que ali não era meu lugar, naquele dia o vazio veio me visitar e eu sentir o peso do mundo na cor da minha pele.

Alguns meses depois eu já era o melhor aluno da turma, e minhas notas era um belo cartão de visita para o mundo Branco.
Na universidade tive contato com alguns movimentos sociais dois em especial me chamaram muito atenção (Poder ao Povo Preto e Mulheres Periféricas)

Comecei a frequentar as reuniões dos dois movimentos, a principio fui bem acolhido, mas depois comecei a sentir um certo afastamento por causa do meu jeito de falar, por causa da minha forma de se vestir e muito por causa das minhas referencias teóricas, todas brancas.

Mesmo assim eu continuava a frequentar as reuniões, naquele espaço o vazio e a solidão que existia em mim, sumia, certa vez no grupo de Mulheres Periféricas escutei falar de Carolina Maria de Jesus uma escritora negra e favelada que escreveu Quarto de Despejo. Eu me apaixonei pela história dessa escritora que se parecia muito com a minha (nesse dia eu chorei muito e todas as lagrimas lavaram o vazio e a solidão que existia em meu peito)

No segundo semestre da faculdade eu me apaixonei perdidamente por Isabelle uma loira dessedente de Italiano, que estudava comigo, vivemos um amor intenso, puro e cheio de desafios.
Quando os integrantes dos grupos Poder ao Povo Preto e Mulheres Periféricas descobriram que eu e Isabelle estávamos juntos, eles me expulsaram do grupo e fizeram a seguinte afirmação: NÃO ACEITAMOS PALMITEIRO e pele negra, mascaras branca só no livro.

Os pais de Isabelle não me aceitavam, pois eu não era branco e nem da mesma classe social que eles.
Mas o amor, o amor é mais forte que tudo e todos, o meu amor e o de Isabelle só crescia, nós fazíamos questão de mostrar para todos o quanto nós nos amávamos.
Pra comemorar um ano de namoro eu e Isabelle decidimos ir a um restaurante Italiano, antes de sairmos tomamos duas ou três taças de vinho.

Eu peguei o meu carro (corsa, prata ano 2009) e seguimos para o restaurante, a duzentos metros de chegar ao nosso destino meu celular tocou e quando fui atender, eu bati em um ônibus.
Eu morri, e o céu não é branco é azul, azul da cor da saudade e Deus é igual a mim.

Isabelle sobreviveu e tatuou a seguinte frase:
A vida é aquarela
Amor é não tem cor.

 

Sobre o autor:

Carlos Abelhão
Poeta, Escritor, Compositor, Rapper, Músico, Militante do Movimento Hip Hop desde 2003,Estudante de Pedagogia, Ex-presidente do Instituto TamoJunto, Ex-Gerente de Juventude do ES, Produtor Cultural, Sócio do Núcleo de Atendimento a Comunidade Articulada e Organizada (grupo NAÇÃO), Educador social, Articulador, Ativista Comunitário, Pesquisador empírico de tecnologias sociais, idealizador do Sarau Poetizando e do projeto Coisa de Mulher que discuti o feminicídio e o protagonismo das mulheres nas favelas.

Em agosto de 2020, lançou seu livro ''Poemas Selecionados de Carlos Abelhão''.  Antes disso, no final de 2013, lançou seu livro de poesia Marginal Intitulada Um Tudo Do Meu Eu. Sua maior dedicação é o estudo do desenvolvimento comunitária por meio da arte, cultura, Intervenções Urbanas tendo como princípio as Políticas Públicas para Juventude e as políticas de promoção de igualdade racial.

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