Artista propõe experiências clínicas para promover a cura do racismo

A partir do dia 11 de junho, a Galeria Homero Massena recebe a exposição O Trauma É Brasileiro, de Castiel Vitorino Brasileiro.

Neste trabalho, a artista encruza os saberes da psicologia, da arte e do curandeirismo para aliviar os males coloniais que acometem os corpos racializados e dissidentes.

A colonização europeia foi responsável por impor o projeto de civilização cristã, branca e cisgênera às custas do extermínio e o silenciamento de inúmeros povos que aqui já habitavam, bem como a mutilação de muitos outras culturas que para cá foram trazidos da África como mão de obra escrava. Trata-se de um trauma sócio-histórico responsável por adoecimentos do Brasil contemporâneo manifestados através do racismo, do machismo e da LGBTfobia. Da encruzilhada entre os campos da arte, da psicologia e do curandeirismo, a exposição O Trauma É Brasileiro é a primeira individual de Castiel Vitorino Brasileiro e põe o dedo ao mesmo tempo que propõe um alívio temporário dessa chaga civilizatória brasileira e latino-americana.

Aberto à visitação a partir do próximo dia 11 de junho, na Galeria Homero Massena, no Centro de Vitória, esse trabalho contará com a atualização da instalação Quarto de Cura e com atendimentos individuais, aos modos das benzedeiras, entre a artista e o público. Como uma insurgência decolonial surgida a partir da reconstrução do laço ancestral Bantu, a exposição denuncia como o apagamento da diferença, a imposição de um modelo cultural e o racismo fundaram a sociedade brasileira e vai além: compartilha com o público a investigação da artista em busca da cura do trauma racista e LGBTfóbico.

Além das visitações e dos encontros clínicos com Castiel, a exposição contará com uma mesa de conversa e com o lançamento de um catálogo que acontecerão no mês de julho. Grupos também poderão fazer visitas guiadas mediante agendamento prévio. Quem assina o projeto de arte educação é a artista e doutora em Educação Kiusan Oliveira. O Trauma É Brasileiro conta com recursos do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura), por meio do Edital 019/2018 - Seleção de Projetos de Exposições de Artes Visuais.

Uma clínica efêmera para uma cura perecível

O Trauma É Brasileiro propõe uma experiência de cura e parte de uma cartografia que Castiel tem feito no Morro da Fonte Grande, no Centro de Vitória - comunidade onde a artista nasceu e passou a infância com a família. Nessas visitas, seja presencialmente ou por meio do acesso a algumas memórias, ela tem atualizado os saberes Bantu que organizaram o modo de vida aquilombado de seus familiares. O Quarto de Cura, instalação que já havia sido apresentada ao público em outros dois momentos, reúne obras criadas desde julho de 2018 a partir das investigações da história familiar da artista e de registros de suas andanças por esse território temporal e geográfico: são fotografias, textos, mandingas, indumentárias e outros objetos.

Graduanda do 9º período de Psicologia da Ufes, Castiel recorre a diferentes fontes de saber e equivoca as bases epistemológicas que orientam clínica psicológica tradicional ao tratar de algo tão complexo como a cura de traumas brasileiros. Sua poética evidencia como adoecimentos corpóreos estão sendo produzidos por demandas sociais que são brasileiras. "Quando digo que há um trauma que é brasileiro, faço um convite à psicologia a pensar os adoecimentos produzidos no Brasil. Essa é uma responsabilidade que a psicologia se recusa a aceitar, tampouco pensa de modo referenciado nos processos de subjetivação brasileiros e latino-americanos. Ao longo da graduação fui aprendendo que a cura não existe, mas as pessoas racializadas, mesmo sem terem a ajuda da psicologia na promoção de sua saúde, se curam e a afirmam a cura. Elas têm outro referencial de saúde. Com as benzedeiras aprendi que a Cura é uma experiência de saúde perecível e efêmera, que precisa se modificar, assim como nosso corpo. Tenho nomeado minha pesquisa em psicologia de Clínica da Efemeridade, uma clínica que aposta nessa encruzilhada entre arte, psicologia e curandeirismo. E entende que os processos de promoção de saúde são desencadeados não apenas por psicólogas(os), como também por padeiros, primas, e benzedeiras. A prática clínica de promoção de vida não deve entendida como propriedade da psicologia, e a psicologia precisa descolonizar-se para conseguir produzir saúde às pessoas que ela ajudou a subalternizar"

Minibio da artista

Sobre Castiel Vitorino Brasileiro

Com 22 anos e graduanda do 9º período do curso de Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, Castiel Vitorino Brasileiro pesquisa e inventa relações em que corpos não-brancos se desprendem das amarradas da colonialidade. Idealizadora do projeto de imersão em processos criativos decoloniais DEVORAÇÕES. Produz estéticas e discursos que colaboram para a desestabilização de sistemas racistas, que ao longo da história subalternizam populações negras.

Exposições Coletivas

"Davisuais", Galeria de Arte e Pesquisa, Vitória/ES (2016);

"Corpo expandido", curadoria de Natalie Niredia Aliança Francesa, Vitoria/ES (2016);

"Degelo Tropical", I Fórum Acadêmico de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória/ES (2017);

"Ca Entre Nós", curadoria Neusa Mendes, Hilal Sami Hilal e Tom Boechat. OÁ Galeria - Arte Contemporânea/ES (2017);

"Davisuais", Galeria de Arte e Pesquisa da UFES, Vitória/ES (2017);

"Territórios Internos", curadoria de Natalie Miredia, Casa Porto de Vitória, Vitória/ES (2018);

"Malungas", Museu Capixaba do Negro. Curadoria de Rosana Paulino. Vitoria/ES (2018);

"VER O INVISÍVEL, DIZER O INDIZÍVEL", no Valongo- Festival Internacional da Imagem. Curadoria de Tarcísio Almeida. Santos/SP. (2018);

In.corpo.rar: exposição viva. Galeria do Centro de Artes UFF. Curadoria de Carolina Galhardo, Leticia Santana, Morgana Côrtes, Talí Ifé, Tatiana Nunes. Niteroi/RJ (2018);

"Atos de Mover", no Centro de Artes e Comunicação - CAC/UFPE. Recife/PE (2019) ;

"Aqui foi o Quilombo do Pai Felipe", exposição virtual no site Buala.org. Curadoria de Jota Mombaça. disponiível em http://www.buala.org/pt/galeria/aqui-foi-o-quilombo-do-pai-felipe 2019

"Matrix Colonial", Cartel 011. Curadoria de Projeto Dudús. São Paulo/SP (2019).

"Experiências Ímpares", Virgínia Tamanina. Curadoria de Felipe Lacerda e Rosana Paste. Vitória, 2019

Ações/ ocupações/instalações

"Experiências de Jardins", feita junto com a artista Kim Cavalcante, no durante a imersão Afrotanscendence. São Paulo/ SP (2016)

"Novos Ancestrais", feita junto com os artistas Iwintolá, Janaina Barros, Rincón Sapiência e Thiago Miranda, durante a imersão Afrotanscendence. São Paulo/SP (2016);

"Ode à bixa-preta" realizada na 1º Marcha do Orgulho Crespo de Vitória. Vitória/ ES (2017);

"COMO SE PREPARAR PARA A GUERRA", realizada no I Seminário Afronta - Compartilhando Saberes e Afetos. Museu Capixaba do Negro. Vitória-ES (2017);

"Performance Bixa Preta - Manual de usos da cidade", Coletivo Kuirlombo, Semana de Diversidade de Ouro Preto. Ouro Preto-MG (2017).

"Espelho", lançamento do livro Bonde, do poeta Janio Silva. Realizada no Museu Capixaba do Negro. Vitória/ES (2018);

"Quarto de cura", no Morro da Fonte Grande. Instalação realizada dentro da casa de Renato Santos, no Morro da Fonte Grande, em Vitória. Experiência realizada 15/12/2018 à 11/01/2019.

Imersões e Residências Artísticas

AfroTranscendece. Curadoria de Diane Lima. São Paulo/SP (2016);

CAPSULA" . Vitória/ES (2017);

Residência Artistica Fabrica.Lab", com curadoria de Franz Manata. Vitória/ES (2017);

Residência no ateliê de artista Rosana Paulino. São Paulo/SP (2018);

Programa de Residência do Valongo - Festival Internacional da Imagem, https://valongo.com/projeto-valongo. Curadoria de Diane Lima e Tarcísio Almeida. Santos/SP (2018).

Curso Estéticas Macumbeiras na Clínica da Efemeridade

Turma 01: Universidade Federal do Espírito Santo, em parceria com o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Subjetividade e Política.15 horas. Vitória/ES. 2019

Turma 02: Colabirinto, em parceira com Lastros - Grupo de Estudos. 9 horas. São Paulo/SP. 2019

 

 

Serviço:
O que: Exposição O Trauma É Brasileiro, de Castiel Vitorino Brasileiro
Quando: De 11 de junho até 24 de agosto de 2019
Onde: Galeria Homero Massena - Rua Pedro Palácios, nº 99 - Cidade Alta, Centro de Vitória, Vitória - ES
Entrada: franca
Facebook: https://tinyurl.com/y3hbfl24

Abertura
11 de junho, às 19h

Visitação
De 12 de junho até 24 de agosto de 2019 de segunda a sexta-feira, das 9 às 18h, sábado, das 13 às 17h.

Visita de grupos
Mediante agendamento com a equipe da Galeria Homero Massena
(27) 3132 8395 / Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Experiências Clínicas
Mediante agendamento com a artista
(27) 997 395 420 / Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Mesa de Conversa com a artista
02 de julho, às 19h

Lançamento do Catálogo da Exposição
23 de julho, às 19h

Site e redes sociais
Blog: otraumaebrasileiro.blogspot.com
Instagram: @castielvitorino
Facebook: @psicotendencia